É importante, para mim, partilhar o meu testemunho, bem como as ferramentas e as estratégias que minimizaram (e que minimizam) os impactos da dislexia no meu percurso (pessoal e profissional). Deixar um legado a todos os que, como eu, sofreram, sofrem e sofrerão com esta dificuldade de aprendizagem, que tanto se manifesta na vida escolar como, mais tarde, na vida profissional ou pessoal.
O meu propósito
Só descobri que tinha dislexia já adulta e professora de português/francês, na sequência da realização de uma especialização em educação especial.
As dificuldades que sentia tinham uma explicação: eram a consequência da primeira língua que aprendi a ler e a escrever, a língua francesa. Pensava que seria, por isso, que dava tantos erros ortográficos e que tinha tanta dificuldade em ler palavras que não conhecia. No entanto, conheci outras pessoas, ao longo do meu percurso que, tal como eu, estudaram no estrangeiro e não sentiam essas dificuldades.
O meu trajeto
Na escola primária, na França, era muito penalizada pelos erros que dava. A professora dizia à minha mãe para conversar comigo em francês, de modo a que desse menos erros ortográficos. Quando a professora me mandava ler, não sabia onde me meter, escondia-me para ela não me ver.
Sentia vergonha porque era a única, na sala de aula, que não sabia apertar os atacadores.
No meu regresso a Portugal, aos 13 anos, tive de fazer a 4ª classe (4º ano), não atribuíam equivalência. Até ao 5º ano, atual 9º ano, apesar de dar alguns erros, sempre fui boa aluna. Acredito que o que contribuiu para o meu sucesso foi o facto de estar sempre muito atenta nas aulas e, para além disso, os colégios que frequentei não serem colégios de elite, o ensino ser muito básico. Verifiquei isso quando entrei para o secundário, numa escola pública portuguesa.
As minhas dificuldades revelaram-se a partir do 6º ano, atual 10º ano.
Estudava muito e, mesmo assim, só conseguia notas muito baixas, que não correspondiam ao meu desempenho. As dificuldades na disciplina de filosofia, sobretudo na aprendizagem de conceitos muito abstratos, eram imensas.
Na escola Secundária Afonso de Albuquerque, na Guarda, quando tinha de preencher o nome da escola, raramente sabia como escrever ”Albuquerque”.
Pelo facto de ter estudado em França e com a facilidade que tinha nesta língua, decidi seguir, para a universidade, frequentando o curso de Línguas e Literaturas Modernas, variante português/francês. Foi difícil fazer as cadeiras de português, no entanto, estudei sempre muito e as notas eram “mesmo só para passar”.
No francês, os erros eram o menos importante. Como dominava a língua, conseguia tirar melhores notas e, numa prova oral, até consegui tirar dezanove valores. Recordo-me que, numa disciplina de linguística, ensinava às colegas a matéria que tínhamos para as frequências e, quando saíam os resultados, todas ficavam espantadas com as minhas notas.
“-Só um treze?” – diziam elas.
Na disciplina de literatura clássica, na universidade, ao ler os “Lusíadas”, o professor perguntava:
“- A menina não sabe ler?”. Tinha tanta vergonha que, quando desconfiava que íamos ler, faltava às aulas…
Agora, tenho noção que o meu discurso era confuso e pouco claro e, frequentemente complicava o que era simples. Como lia muito, o meu vocabulário era rico, assim, quando tinha dúvidas numa palavra acabava por escrever outra ou alterava a frase, de modo a escrever as palavras que não me suscitavam qualquer dúvida. O pior era quando havia duas palavras parecidas, aí só com estratégias muito específicas, que, infelizmente não funcionavam em momentos de muita tensão, como era o caso dos exames.
Quando não tinha a certeza se estava a escrever bem uma palavra, quando tinha dúvidas entre escolher o “e” e “i” ou o “o” e “u”, tentava fazer a letra não muito percetível, de modo que os professores ficassem na dúvida.
Em contrapartida, na oralidade, aprendia conceitos novos facilmente, o que não acontecia com muitos dos meus colegas. Colocava questões aos professores, muito pertinentes, que os deixavam muito surpreendidos.
No dia-a-dia, havia sempre muita confusão com os horários, nomes das pessoas, na orientação espacial. Tentava fixar-me num pormenor que ninguém via, para me poder orientar. Na orientação temporal tinha pouca noção de tempo (ontem ou há vários dias? Há um ano ou 5 anos?), na transmissão de recados (nunca sabia exatamente o que me diziam)…
Quando conheci o meu marido, ele estava sempre a corrigir-me, eu inventava ou trocava palavras, e ainda hoje isso acontece, embora com menos frequência.
Os exemplos que refiro, da minha vivência pessoal, servem apenas para ajudar os pais a compreenderem que, apesar das minhas dificuldades, sinto-me muito realizada. Com dedicação, persistência, com as ferramentas e com as estratégias que minimizaram os impactos (negativos) da dislexia, e com muito trabalho, alcancei os meus objetivos. Outra capacidade que me acompanha é a resiliência, a capacidade de lidar com problemas e de me adaptar à mudança. A dislexia contribuiu para desenvolver esta vontade de superar obstáculos, de lutar, apesar das adversidades.
Os dias de hoje
A dislexia, em conjugação com as ferramentas e com as estratégias que desenvolvi para minimizar os seus impactos, na minha vida pessoal e profissional, fizeram com que, em 2018, e aos 62 anos, criasse a Disbedo.
Idealizada há mais de 20 anos, a Disbedo tem como missão contribuir para a felicidade das crianças com dificuldades de aprendizagem, e todas as outras crianças, dotando-as de meios diferenciados, que minimizem as suas dificuldades e que as ajudem a superar os problemas com que se deparam no quotidiano escolar convencional.
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